Um banco com 185 mil relatos de conserto: como montei e o que ele mostra

Há anos, quando dá defeito em algo e eu não sei por onde começar, minha primeira parada é procurar se alguém já passou pelo mesmo problema num fórum de eletrônica. O problema é que essa informação está espalhada. Cada fórum tem sua busca própria, quando tem, e boa parte das respostas boas está enterrada no meio de uma thread de 40 mensagens. Resolvi juntar tudo isso num lugar só, pesquisável.

O resultado, depois de umas semanas de trabalho: 185.282 relatos de defeito, cobrindo 95 tipos de equipamento e mais de 5 mil variações de nome de marca (contando "Philips" e "PHILIPS" como duas, ainda dá pra limpar isso depois).

Não vou citar de onde veio cada fonte. O que importa aqui é o processo.

Como montei

Comecei baixando tópicos de 18 fóruns e sites diferentes de eletrônica e reparo. Mais de 100 mil tópicos no bruto. Boa parte não vale nada: pergunta sem resposta, "alguém sabe?" que nunca foi respondido. Apliquei um filtro simples, só entram tópicos com 3 respostas ou mais. É pouco, mas já corta o ruído sem jogar fora caso raro.

Cada fórum roda em um motor diferente por trás. Uns usam tema clássico, outros o tema moderno da mesma plataforma. Alguns marcam qual resposta resolveu o problema, a maioria não marca nada. Isso quer dizer que não deu pra escrever um leitor único: cada fonte pediu seu próprio código pra encontrar o post principal, separar a queixa da solução dentro da conversa e ignorar lixo (assinatura, citação aninhada, anúncio).

Depois de baixado, o texto ainda é só um parágrafo solto. O banco precisa saber o equipamento, a marca, o sintoma e a causa de cada caso, como campos separados, pra dar pra filtrar e cruzar depois. Isso saiu em três passadas. A primeira usa uma lista fixa de termos conhecidos (marca, tipo de aparelho, sintoma comum) e casa contra o título e o primeiro post. A segunda varre o resto da conversa com expressões regulares atrás de coisa como "troquei o capacitor" ou "estava com a solda fria". A terceira passa os casos que sobraram por um modelo de linguagem rodando na minha própria máquina, sem mandar nada pra fora.

A parte que tomou mais cuidado foi privacidade. O nome de quem escreveu cada post não entra no banco final, nunca entrou desde o desenho do schema. Mas tem um problema mais chato: dentro do texto livre da resposta, é comum aparecer "fulano escreveu: ..." citando outro usuário, ou um agradecimento nominal no meio da frase. Isso não dá pra resolver removendo um campo, precisa reconhecer o nome dentro da frase e trocar por um marcador, sem confundir com nome de peça ou de marca.

Aprendi isso na prática. Numa primeira tentativa, o reconhecimento de nome rodou sem filtro nenhum contra o texto e apagou também termo técnico, "Capacitor" virou "[nome]" em milhares de linhas. Descobri o estrago, restaurei tudo a partir do HTML original (que eu tinha guardado intacto) e reescrevi o processo com filtro de marca conhecida, checagem de amostra antes de aplicar em escala e backup do texto original antes de qualquer mudança. Ficou mais lento, mas hoje confio no resultado.

Os números gerais

Com o banco montado, dá pra parar de olhar caso por caso e olhar o conjunto. Um aviso antes dos números: quem classifica equipamento, marca e sintoma automaticamente é um dicionário só em português. Nas fontes em espanhol, inglês, russo, polonês e outras línguas (quase 30% do banco), a maioria dos relatos não tem esses campos preenchidos, mesmo o relato existindo e estando pesquisável por texto. Os números abaixo, então, retratam principalmente a parte do banco em português. Ainda não é uma limitação resolvida, é a realidade do banco hoje.

TV domina o banco, isolada. São 85.412 dos 185.282 relatos, quase sete vezes o segundo colocado (Fonte, 12.316). Faz sentido: é o aparelho que mais gente teve em casa por mais tempo, e o que mais rende fórum de reparo desde os anos 2000.

Dentro de TV, oito marcas concentram a maior parte dos relatos com marca identificada. Philips lidera com folga, 14.628 casos, contra 9.124 da Sony, a segunda colocada.

A parte que achei mais interessante foi cruzar marca com o defeito mais citado. Separei só os casos onde o classificador conseguiu identificar um sintoma (nem todo relato tem isso), e comparei os três defeitos mais comuns de cada marca, em proporção sobre o total dela.

"Não liga" aparece em primeiro lugar nas oito marcas, sem exceção. Não é surpresa, é o sintoma mais genérico que existe, muita gente descreve o problema assim antes de abrir o aparelho e achar a causa real.

O que varia é o peso desse "não liga" dentro de cada marca. Na CCE ele é 12% dos casos. Na Sony, 1%. Fui atrás do motivo e achei: 88% dos relatos de TV Sony vêm de uma única fonte tabular, que tem o próprio vocabulário de sintoma, em vez de passar pelo classificador comum. Nela, o equivalente a "não liga" aparece espalhado em "Dead", "Inoperante", "St/by only", cada um contado separado e descartado do gráfico por eu ter filtrado esses termos como ruído. Não é que a Sony trave menos, é que boa parte dos casos dela ficou fora da conta por causa da fonte. CCE, ao contrário, vem mais de fórum comum, que passa pelo classificador em português e cai direto em "não liga". Ou seja: o gráfico mistura defeito real com o jeito que cada fonte registra o defeito, vale o cuidado.

O segundo e terceiro colocados por marca também contam uma história. CCE, Toshiba e Semp têm "problema no vertical" ou "no horizontal" bem posicionado, defeito clássico de TV de tubo. LG e Samsung puxam mais pra "sem imagem", mais compatível com o parque de LCD. Bate com o legado de cada marca no mercado brasileiro: CCE e Semp vêm de uma geração bem mais forte em CRT.

Tem outro corte que não aparece no gráfico de sintoma: qual componente as pessoas mais citam como causa do defeito, dentro do relato de conserto. O banco não tem campo estruturado pra isso, então fui atrás por palavra-chave no campo de causa. Capacitor lidera disparado, 10.799 menções em 108.079 causas preenchidas, quase 50% na frente do segundo colocado.

CI vem em segundo (7.335), resistor em terceiro (6.094). Bate com o que qualquer técnico de bancada já espera: capacitor eletrolítico estufado ou seco é a causa mais barata de achar e a mais comum de aparecer num fórum de conserto, é praticamente o primeiro item que se checa numa fonte que não liga.

Vale o aviso de sempre: o "defeito" vem de um classificador automático rodando em cima de texto livre de fórum, não é laudo técnico. Serve pra ver tendência, não pra fechar conclusão fina sobre um modelo específico.

Os modelos que mais aparecem

Depois de olhar tipo de equipamento e marca, desci mais um nível: modelo. O campo bruto tem bastante ruído, o parser pega o primeiro token com dígito do título do tópico, então de vez em quando pesca a tensão do aparelho em vez do modelo de verdade ("12V" apareceu quase 300 vezes como se fosse um modelo). Filtrei esse tipo de entrada e normalizei maiúscula e espaço antes de contar, pra "PH21MSS" e "PH21M SS" não virarem duas linhas separadas.

Faltava mais uma consolidação: a Philips usa um sufixo de variante no fim de quase todo modelo, "/78" ou "/78R", que marca a versão regional/cor do aparelho, não um modelo diferente. Sem tirar isso, "29PT4635" e "29PT4635/78" apareciam como duas linhas separadas, cada uma com metade da contagem real. Juntei os dois.

Vale a mesma ressalva de idioma de antes: essa contagem exige marca e equipamento identificados, e esses dois campos só são classificados em português. Esse ranking é sobre a parte do banco em português, não sobre o banco inteiro.

Todos os 15 primeiros são TV, nem chega a aparecer outro tipo de equipamento na lista. Philips 29PT4635 lidera com folga depois da consolidação, 350 relatos, seguido do 20PT3331, também Philips, com 327. O resto do top 15 fica entre Philips, LG, Ferguson, Gradiente, CCE e Semp, quase todo mundo com tubo de imagem de 14 a 29 polegadas, a faixa que mais rodou nos fóruns que colhi.

Um detalhe curioso: "TX100", "TX10" e "TX90" aparecem sob a marca Ferguson. São nomes de chassi, não modelo comercial no sentido de "o que está escrito na caixa", mas é assim que o título do tópico costuma se referir ao aparelho, então é assim que entrou no banco. Vale saber disso antes de usar esse dado pra procurar peça: chassi ajuda mais que modelo comercial na hora de achar esquema.

Quando o mesmo componente se repete no mesmo modelo

Pra ver se algum desses modelos tem defeito repetido na mesma peça, tentei uma primeira vez agrupar a causa por categoria ampla ("capacitor", "flyback" etc.) e o resultado saiu errado: um chassi de Panasonic apareceu com 100% dos casos como "circuito integrado", mas ao ler o texto cru vi que a causa registrada, na maioria das vezes, é só a referência do componente no esquema ("IC1104", "C559"), sem palavra nenhuma. Meu categorizador reconhecia "IC" e ignorava tudo que começava com outra letra, inflando o resultado.

Refiz do jeito certo: em vez de categoria, extraí a referência exata do componente (a primeira que aparece no texto, no padrão letra + número: C805, R813, Q802, D831, IC1104) e comparei se o mesmo modelo de TV cita a mesma referência mais de uma vez. Reusei a mesma consolidação de modelo da seção anterior (sufixo "/78" da Philips junto, "TV" redundante fora) e conferi amostra de causa crua antes de confiar no número, pra não repetir o erro anterior.

Só entrou na lista modelo com 15 causas registradas ou mais, e só apareceu aqui quando a mesma referência se repetiu 3 vezes ou mais. Depois de consolidar as variantes de sufixo, o Philips 29PT4635 ficou na frente: C2455 aparece em 28 dos 287 relatos com causa registrada desse modelo. CCE 2118USP, C417 em 22 de 149. Gradiente 2922, C805 em 17 de 113. Não é coincidência de dois ou três casos, é um padrão que se repete dentro do próprio modelo.

Reparei em algo maior que um modelo só: C2444 aparece como referência mais citada em quatro modelos Philips diferentes (20PT3331, 21PT5433, 14PT3131 e 20PT4331), todos de tubo pequeno/médio. Não sei se é o mesmo chassi por baixo de nomes comerciais diferentes ou se é só um ponto fraco de projeto que a Philips repetiu numa família inteira de aparelhos, não dá pra confirmar isso só com o texto do fórum. Mas ver o mesmo componente repetir em quatro modelos separados, cada um com sua própria contagem, é bem mais forte que ver ele uma vez só.

Isso já é o tipo de informação que ajuda antes de abrir o aparelho: se você pegar um Gradiente 2922 sem imagem, vale medir o C805 antes de sair trocando fonte inteira. Mas cabe a mesma ressalva de sempre, com um detalhe a mais aqui: a causa é o que alguém escreveu no fórum como solução, não é laudo técnico, e a referência extraída é só a primeira citada no texto, pode não ser sempre a peça raiz do defeito.

Curiosidades

Umas curiosidades que apareceram no caminho e não renderam seção própria.

  1. Vinte e cinco anos num banco só. O relato mais antigo é de 19/09/2001, o mais recente de 14/09/2026. O banco atravessa uma geração inteira de eletrônico de consumo, do tubo ao smart TV.
  2. Fora do previsível. Isso é fórum de eletrônica, mas tem gente relatando conserto de geladeira (92 casos), ar-condicionado (100), bebedouro (30) e até adega elétrica, com 3 relatos só, o tipo de equipamento mais raro do banco inteiro fora da minha própria fonte.
  3. Thread que vira comunidade. A mediana é 5 respostas por tópico, a média 8,8. Só 19 tópicos, de mais de 100 mil, passam de 1.000 respostas. Os maiores chegam a 2.000 e 3.000, claramente pararam de ser sobre um defeito específico e viraram ponto de encontro.
  4. Grafia de marca é uma bagunça. Só "Toshiba" aparece escrita de 74 jeitos diferentes no banco bruto (maiúscula, minúscula, "TOSHSIBA" com erro de digitação, marca junto de outra coisa no mesmo campo). Philips tem 52, Samsung 35. Ainda não limpei isso, é claramente o próximo item da lista de faxina de dado.
  5. O post mais longo do banco tinha 351.996 caracteres. Não era texto de verdade: era uma imagem colada no post, codificada em base64, que o parser tratava como se fosse um link comum e despejava inteira no meio do texto. Fui atrás e achei o mesmo erro copiado em 10 parsers diferentes, afetando quase 60 mil posts em 5 fontes. Depois de corrigir, o post mais longo caiu pra 65.672 caracteres, e olha que esse é um roteiro de calibração de TV colado por inteiro, isso sim é texto de verdade.
  6. Bicho não pedido. Depois de tirar da conta expressão que só parece bicho ("trabalho de formiga", "aranha" de fiação improvisada por outro técnico, "tirar alguém do prego"), sobraram mais de uma dezena de relatos de bicho de verdade dentro do aparelho. Barata lidera, com casulo, ovo e até fezes achados dentro da placa. O resto rende mais surpresa: formiga fazendo ninho em cima da placa de cristal líquido de uma TV e queimando um circuito, lagartixa morta dentro da fonte de outra TV, lacraia torrada do lado do maior capacitor, pássaro morando dentro do alimentador de uma antena parabólica (explicava a perda de sinal intermitente do cliente) e um prego achado dentro de uma terceira TV, puxando 290V pro lugar errado.

Que peça costuma resolver cada defeito, pelo padrão do banco

Com equipamento, sintoma e causa preenchidos em boa parte do banco, dava pra ir além de contar e cruzar campo. Testei uma pergunta mais prática: dado um sintoma, existe alguma peça que aparece resolvendo ele acima do que o acaso explicaria? Rodei regra de associação, o mesmo tipo de algoritmo usado em recomendação de produto, sobre equipamento e sintoma apontando pra peça trocada. Só na parte em português do banco, que é onde o classificador de peça e o vocabulário de sintoma funcionam.

A peça eu extraio do texto de causa. Primeiro tento casar palavra-chave (capacitor, flyback, transistor), se não achar nada tento o código do componente no esquema (C2447 vira capacitor, STK392 vira circuito integrado, pela convenção de designador). Cobre 79% dos 101.710 registros com equipamento, sintoma e causa preenchidos.

Os dois achados mais fortes confirmam o esperado, com número. DVD que não lê mídia aponta pra unidade óptica em 37% dos casos, lift de 201 (201 vezes mais provável que o acaso). Micro-ondas sai resolvido pelo magnetron em 13% dos relatos, lift 106. Bom sinal de que o método funciona, mas não é descoberta.

O que rendeu de verdade foi olhar os achados menos óbvios. TV com problema de sintonia (não sintoniza, sem canais, chuvisco, ruído) aponta pro varicap, lift de até 26. Não tinha essa associação na cabeça quando montei o léxico de peça, mas faz sentido assim que vi: varicap é o diodo de capacitância variável que faz a busca de canal nas TVs de tubo.

Segundo achado: TV com cor errada ou manchas na imagem aponta pra EEPROM, lift 6,1 em 47 casos. É onde fica gravado o dado de calibração de cor, bate com o sintoma. Esse ainda quero confirmar lendo uma amostra de causa crua antes de confiar de olhos fechados, mesma cautela de sempre com número agregado.

Rendeu o suficiente pra virar feature de verdade. Hoje o dashboard tem uma página de diagnóstico: escolhe equipamento e sintoma, mostra a peça mais provável com confiança, lift e quantos casos sustentam ela.

Vale o aviso de sempre: é o que mais aparece nos relatos de fórum, não é laudo técnico nem garantia pro próximo caso que aparecer na bancada.

O componente que mais aparece como causa, e um cheiro de peça não original

Voltei no banco pra garimpar mais um pouco, dessa vez usando o texto inteiro da conversa, não só o campo de causa.

Uma coisa que sempre reparo nos meus próprios posts de conserto: cito o componente pelo código do esquema (C825, Q802, TDA2030), não só pela categoria. Fui atrás de fazer o banco falar a mesma língua, com um padrão que pega designador de componente (letra e número, tipo C123 ou Q45) e família de CI conhecida (TDA, STK, LA, TL, LM) em qualquer parte do relato, causa, solução e discussão inteira.

Achei 13.595 designadores distintos nos 185 mil relatos. No topo, Q802 e TL431 (praticamente empatados, mais de mil relatos cada), seguidos de perto pelo clássico regulador LM317. Q802 é transistor, TL431 é referência de tensão, LM317 é regulador ajustável, os três típicos de fonte chaveada, o subsistema que mais falha em TV.

Testando esse mesmo padrão pra outra coisa (ver se algum designador tem pico de menção estranho num período curto, sinal de lote ruim de fábrica), esbarrei num achado que não estava procurando. Alguns componentes aparecem de novo e de novo perto de termo como "não original", "clone" ou "falsificado". O capacitor C419 e a família de transistor Q4xx lideram essa lista.

Bate com o que todo técnico de bancada brasileiro já ouviu falar, o mercado paralelo de componente reposto, mas é a primeira vez que vejo isso confirmado direto em texto de fórum, não só boato de balcão.

O sinal de lote ruim que eu queria mesmo confirmar não deu resultado confiável. A maioria dos picos que achei tinha poucos casos, dois ou três relatos concentrados num trimestre já disparam o alarme estatístico sem significar nada de verdade. Fica pra quando o banco crescer mais.

Quando o tubo virou LED, pelos dados do fórum mais antigo

A fonte mais antiga do banco tem uma coisa que as outras não têm: data de cada tópico, contínua, desde 2001, sem furo. Dá pra ver mudança de tecnologia acontecendo ano a ano, não só num retrato parado no tempo.

Contei, por ano, quantos tópicos citam termo de tubo (flyback, cinescópio, "tubo de imagem") contra quantos citam termo de painel plano (LCD, LED, plasma, inversor). As duas curvas se cruzam por volta de 2014.

Em 2011, quase um quarto dos tópicos ainda menciona tubo (24%) contra 20% de painel plano. Nove anos depois, em 2020, tubo caiu pra menos da metade (12%) enquanto painel plano dobrou (41%).

O mesmo período marca o início do colapso de volume do fórum: 6.598 tópicos em 2011, 700 em 2016, 6 em 2026. Não acho coincidência as duas coisas acontecerem juntas. TV de tubo é o aparelho clássico de "vale a pena abrir e consertar em casa". TV de LED moderna já não compensa tanto, o preço caiu e a reparação ficou mais chata, placa multicamada, componente miniaturizado. Bateu no aparelho, bateu no público amador que sustentava o fórum.

Vale lembrar que essa análise é só dessa fonte, de propósito. Misturar fórum diferente traria viés de quando cada um começou a coletar dado, não de tecnologia de verdade.

Qual defeito dá mais trabalho pra fechar

Usando o número de posts do thread até o defeito ser dado como resolvido, como um proxy grosseiro de dificuldade, separei por tipo de equipamento. Linha branca embutida no mesmo banco (geladeira, micro-ondas, ventilador, lavadora, ar-condicionado) exige de 6 a 8 posts de mediana pra fechar. Eletrônica de consumo (amplificador, notebook, monitor) fecha com mediana de 1 post.

Geladeira lidera com 8 posts de mediana, oito vezes mais que amplificador ou notebook. O resto da linha branca (micro-ondas, ventilador, lavadora, ar-condicionado) fica na faixa de 6 a 7, ainda bem acima da eletrônica de consumo. Não tirei conclusão fechada disso. Parte pode ser dificuldade real, defeito de linha branca costuma exigir mais idas e vindas de "você já checou X", já que o técnico do fórum não vê o aparelho. Mas parte pode ser só norma de cada comunidade: cada tipo de equipamento vem majoritariamente de uma fonte diferente do banco (linha branca de um jeito, TV de outro), e cada fórum tem seu próprio costume de quantas mensagens leva até fechar um tópico. Não dá pra separar as duas coisas só com esse número.

Quando duas fontes concordam

Uma pergunta que fica no ar sempre que junto fonte diferente no mesmo banco: será que, dado o mesmo modelo com o mesmo sintoma, fontes diferentes apontam pra causa parecida, ou é cada uma dizendo uma coisa? Cruzei marca, modelo e sintoma entre as fontes em português e separei os casos onde 2 fontes ou mais bateram na mesma peça como causa.

Achei 1.004 combinações concordantes. O caso mais repetido: Gradiente 2922 com "liga e desliga sozinho" apontando pra capacitor, confirmado em três tópicos de fóruns diferentes que nunca se cruzaram entre si.

Também achei 682 combinações onde a peça apontada diverge entre fontes. Antes de sair chamando isso de erro no banco, fui ler uma amostra, e a explicação real é mais simples. Sintoma como "não liga" tem causa raiz genuinamente variada (fonte, flyback, fusível, solda fria, todos no mesmo modelo de TV). Cada fonte capturou um caso real diferente, não uma contradição sobre o mesmo caso. Corroboração forte de verdade é mais fácil de achar num sintoma específico do que num sintoma genérico.

Fichas de bancada automáticas pros modelos mais comuns

Com o banco maduro, deu pra fazer uma coisa que eu sempre quis: gerar uma ficha rápida pros modelos que mais aparecem, tipo cola de bancada antes de abrir o aparelho. Pros 20 modelos com mais registro nessa contagem, o script busca top defeito, top peça trocada, se algum tópico menciona modo de serviço e se algum link de esquema foi citado na discussão.

Vale um aviso antes dos números: aqui usei uma contagem de modelo mais simples que a da seção sobre modelos lá em cima, só maiúscula e espaço, sem juntar sufixo de variante regional tipo "/78". Então a ordem e o total não batem exatamente com aquele ranking, é outro recorte do mesmo dado, feito pra saber que ficha vale a pena ter pronta, não pra recontar o top de modelos do zero.

Alguns exemplos que saíram bons. Philips 20PT3331 (264 registros): sem som lidera, capacitor é a peça mais trocada, 3 tópicos diferentes confirmam modo de serviço documentado. LG 21fu4rl (205 registros): não liga e liga e desliga sozinho dominam, capacitor de novo na frente, modo de serviço documentado em três tópicos, um deles de um fórum diferente dos outros dois.

No meio do trabalho apareceu um achado que não esperava. Três dos quatro modelos com mais registro nessa contagem são Ferguson (TX100 em 1º, TX10 em 3º, TX90 em 4º, intercalados só pelo Philips 20PT3331 na 2ª posição) e têm o sintoma registrado em inglês, mesmo vindo de uma fonte marcada como português no banco. Não investiguei o motivo até o fim, mas Ferguson é marca britânica, então minha hipótese é que essa fonte tem uma base de dado em inglês misturada, sem tradução, dentro do que eu assumia que fosse todo texto em português. Vou verificar isso antes de confiar de olhos fechados no filtro de idioma pras próximas análises.

O que o banco confirma dos meus próprios consertos

Depois de tanto garimpar fonte alheia, cruzei o banco com os meus próprios 94 consertos documentados aqui no blog, que também entraram como fonte (marca e modelo batendo com marca e modelo de outra fonte qualquer). Achei coisa boa.

No LG 42LD420, meu diagnóstico foi CI da fonte (STRW6053N) e zener ZD503 em curto. Achei dois tópicos independentes de um mesmo fórum, mesmo modelo, com a causa quase idêntica: "regulador strw 6053 em curto" num, "STR-W 6053 N e as tensões na fonte voltaram ao normal" no outro. Três pessoas diferentes, três consertos separados, mesmo componente exato.

No LG 50PB560B, o de plasma, meu diagnóstico foi placa YSUS com vários componentes estourados. Achei um grupo de uns 15 relatos independentes do mesmo modelo, quase todos apontando pra placa Y-SUS (capacitor C204, C205, C445, CI 251, CI 204, fotoacoplador). Esse chassi claramente é conhecido por queimar a Y-SUS. Meu conserto só confirma o que o fórum já sabia antes de eu nem ter o aparelho em mãos.

Reparando no padrão geral: quase todo "não liga" que resolvi vem de CI de fonte chaveada ou capacitor com ESR alta (STRW6053N, MP3378E, PAM2306, TOP243, DK125, LP4054, TD1410, fora os capacitores soltos). É o mesmo subsistema que lidera o ranking de componente mais citado do banco inteiro. Bateu também na parte de dificuldade: 6 dos meus consertos são linha branca (2 micro-ondas, 2 lavadoras, 1 lava-louças, 1 ventilador), justamente a categoria que o banco mostra como mais difícil de fechar.

Achei um falso positivo também, bom de registrar. Alguns aparelhos de som e videocassete meus (Philips AZ2425, VR453, AS565) "batem" com registros bem antigos de outra fonte, mas são produtos completamente diferentes reaproveitando o mesmo código de modelo décadas depois. Cruzar por nome de modelo sozinho engana de vez em quando.

Multímetro Amarelinho de R$ 5,00: por dentro (e onde ele é perigoso)

Multímetro Luatek LWJ-303A de R$ 5,00 ainda na embalagem, com as pontas de prova

O multímetro acima é um Luatek LWJ-303A, o famoso "amarelinho" (o meu veio laranja). Custou R$ 5,00 e é o mais barato que já comprei. Medi contra as minhas referências, abri e fui procurar o fusível do jack de 10A. Fiz um vídeo mostrando os testes e a desmontagem:

Agora mais fotos e informações. A caixa abre com só dois parafusos. Dentro, a placa principal e a bateria de 9V, que já veio com ele:

Interior do multímetro com a placa montada e a bateria de 9V Peak Power

A placa sai inteira, ligada à plaquinha dos jacks de entrada:

Caixa laranja do multímetro aberta, com a chave rotativa e a placa verde fora da carcaça

O CI é uma gota de epóxi preto montada direto na placa (chip-on-board), o que sai mais barato que um CI normal. Não dá para saber qual é. Fora ele, não tem nenhum transistor, só um diodo, o buzzer redondo à direita e o soquete de hFE:

Detalhe da placa do multímetro com a gota de epóxi preto do chip, o buzzer e a plaquinha dos jacks

Nos testes, o manual dá 1% de precisão básica em tensão contínua. Era um bom número há 34 anos, hoje se acha multímetro de 0,5% fácil. Medi minha referência de 5 V (0,1%) e ele marcou 5,01 V. O resistor de 1 kΩ de 0,1% também deu uma leitura dentro do esperado. Tem teste de continuidade com beep, que é útil.

O manual e a caixa falam em temperatura, mas não achei nada de temperatura no aparelho. Em compensação tem uma saída de onda quadrada, com o símbolo ao lado do hFE, que o manual nem cita. No osciloscópio deu uns 30 Hz e dá para testar um circuitinho de áudio com ela. Como o CI é a única coisa ativa na placa, o sinal deve sair dele. Por isso desconfio que não seja um ICL7106 de verdade, só um equivalente.

O problema é o fusível. O painel avisa "UNFUSED" ao lado do jack de 10A e marca "FUSED" na entrada de mA, mas na bancada não achei fusível em nenhuma das duas. Se passar corrente demais no 10A, quem abre é um resistor da placa.

Dá para usar em manutenção, se você prestar atenção no que está fazendo. Se queimar, já era. Paguei R$ 5,00 e o preço normal é uns R$ 20. Só a bateria já quase paga o multímetro.

Adendo: muita gente duvidou do valor. Foi uma promoção no AliExpress por R$ 4,99 (print do anúncio).

Print do anúncio do multímetro no AliExpress por R$ 4,99

Palavras cruzadas de eletrônica: 20 níveis pra treinar o vocabulário

Fiz um jogo de palavras cruzadas com o vocabulário da bancada. São 20 níveis e 108 palavras, de VOLT e OHM no primeiro nível até POTENCIOMETRO e TRANSFORMADOR no último, com 13 letras cada.

A primeira versão sorteava a grade na hora, direto no navegador. Não precisava disso. Montei as 20 grades uma vez, com um script, e deixei fixas. Cada nível é sempre o mesmo, então dá pra voltar nele e tentar fechar em menos tempo. Fechou a grade, o próximo nível abre, e quanto mais rápido, mais pontos.

O que mais deu trabalho foram as dicas. Revisando as 108, achei cinco ruins. A do RADIO dizia "recebe sinais de rádio", e a do CORRENTE entregava a palavra CONDUTOR, que estava na mesma grade. Troquei essas duas e mais três.

Duas regras: escreva sem acento e sem cedilha ("relé" vira RELE), e o botão Revelar mostra a grade resolvida mas não conta o nível como concluído. O progresso não fica salvo, então recarregar a página volta ao nível 1.

O jogo está na página Palavras cruzadas de eletrônica. Os outros jogos do blog, de código de cores e de código impresso, estão na página de jogos.

Se achar alguma dica errada, escreve nos comentários que eu troco.

Treze calculadoras novas: fontes, filtros e LED

Quarta leva de calculadoras do blog. As duas anteriores cobriram a conta de todo dia e a conta de quando a montagem já está na bancada. Esta sobe um degrau: fonte chaveada, filtro ativo, snubber, dissipador. É o tipo de conta que se faz com o datasheet aberto do lado. As treze têm o esquema do circuito na página e estão no índice de calculadoras.

Na ordem em que ficaram no índice:

  1. Ponte de Wheatstone: os quatro braços e a tensão de alimentação, sai a tensão de desequilíbrio. Com a ponte equilibrada, sai o resistor desconhecido. No meio da ponte vai um galvanômetro, e pra quem tem um sem escala o gerador de escala já está no site.
  2. Filtro LC: L, C e a carga, sai a frequência de corte, a impedância característica e o Q. Passa-baixa ou passa-alta.
  3. Polarização de transistor: o NPN em emissor comum com divisor de tensão na base, resolvido por Thévenin. Sai Ib, Ic, Ie e Vce, que é o que diz se o transistor vai trabalhar no meio da reta ou encostado na saturação antes de soldar qualquer coisa.
  4. Filtro ativo Sallen-Key: segunda ordem, passa-baixa. R1, R2, C1, C2 e o ganho do amp-op, sai a frequência de corte e o Q. Se o corte cair na faixa de áudio, dá pra conferir a curva montada com o gerador de sinais e o osciloscópio pela placa de som.
  5. LM317 como fonte de corrente: um resistor entre OUT e ADJ e o LM317 vira fonte de corrente constante, I = 1,25 V / R. O testador de LEDs que mostrei em 2019 não tem nada disso, só resistor de limitação e a corrente marcada no painel como referência. Com um LM317 a marcação seria de verdade.
  6. Conversor buck/boost: tensão de entrada, de saída, corrente e frequência de chaveamento. Sai a razão cíclica e a indutância mínima pra não cair em modo descontínuo.
  7. Snubber RC para relé e triac: o RC em paralelo com o contato ou com o triac, pra segurar o pico quando uma carga indutiva é desligada. Existe mais de um jeito de dimensionar snubber. Este usa balanço de energia e amortecimento crítico, e a página avisa isso.
  8. Multiplicador de tensão: dobrador, triplicador ou quantos estágios quiser, a diodo e capacitor. Sai a tensão de saída e uma estimativa do ripple, que vale pra carga leve.
  9. Resistor ou NTC contra inrush: fonte com capacitor grande na entrada puxa um pico enorme na hora de ligar. A calculadora dá a resistência mínima pra limitar esse pico e compara resistor fixo com NTC, que esquenta, cai de resistência e para de dissipar tanto depois que a fonte estabiliza.
  10. Fita de LED: fita de 12 V puxa bastante corrente, e a queda no cobre da própria fita deixa o fim mais fraco que o começo. A calculadora estima essa queda e o comprimento máximo antes de passar do limite. É a da imagem acima: duas fitas de 5 m (14,4 W/m) emendadas e ligadas por uma ponta só puxam 12 A e perdem 2,4 V até o fim, 20 % da tensão. Eu tenho uma fita de 5 metros comprada por engano e ainda bem que não comprei duas.
  11. Dissipador para LED de potência: é a mesma conta do vlog de dissipadores de 2014 (Tf = Ta + PD × Rθ), agora virada pra LED de 1 W, 3 W e 10 W. Sai a resistência térmica máxima do dissipador pra junção não passar do limite.
  12. Atenuador resistivo L, Pi e T: atenuação em dB e impedância do sistema, 50 Ω pra RF ou 75 Ω pra vídeo, sai o valor de cada resistor. Faz dupla com a calculadora de dBm da leva passada.
  13. Quadripolos: a mais teórica de todas, e nem estava na lista original. Converte entre parâmetros Z, Y, H, ABCD e S e cascateia duas redes. Só aceita número real, então serve pra rede resistiva e pra conferir exercício, não pra RF com parte imaginária.

Com essa leva o índice passa de cinquenta calculadoras. A próxima já tem lista: indutor de núcleo de ar, toroide, VSWR, transformador. Se você faz alguma conta sempre na mão, escreve aí embaixo que ela entra na fila.

Por que saíram tantos posts esse mês

Setembro teve post atrás de post aqui no blog: calculadora, jogo, medidor, tabela de conserto, mais do que o normal. A explicação é simples: comecei a usar IA para montar as ferramentas do blog, não só para escrever texto.

Uso o Claude Code, um assistente de programação que roda no terminal, assinando o plano Pro da Anthropic. Dou uma instrução (por exemplo "faz uma calculadora de divisor de tensão, com esquema do circuito e explicação") e ele escreve o HTML, o CSS e o JavaScript da página inteira. Eu testo, peço ajuste, ele ajusta. Às vezes refaço três ou quatro vezes até o resultado ficar do jeito que eu queria.

Foi assim que saíram as calculadoras. No mês, publiquei 39 páginas diferentes, divididas em três levas: 15 reescritas das que já existiam (só para ficarem mais rápidas e melhor indexadas), 12 novas e outras 12 numa terceira rodada. Cada uma tem esquema do circuito desenhado com uma biblioteca própria para isso (schemdraw), não mais os desenhos feitos à mão em SVG que eu usava antes.

Os jogos seguiram o mesmo caminho: "Adivinhe o Resistor", "Adivinhe o Capacitor", "Adivinhe o Indutor" e "Leia o Resistor SMD". Queria testar se dava pra fixar código de cores de um jeito mais direto que texto corrido, e virou umas horas de trabalho por jogo em vez de uma semana.

A parte que mais gostei foi organizar dado bruto. A tabela do "O que tem dentro" (peças e defeitos que já vi em conserto) cresceu bastante porque consegui pedir para o Claude vasculhar posts antigos, extrair aparelho, defeito e componente trocado, e montar a base sem eu digitar linha por linha. Depois eu confiro cada entrada contra o post original, porque IA erra, mas o trabalho de garimpar já vem pronto.

Não é mágica: ainda decido o que fazer, testo cada página no navegador antes de publicar, e corrijo o que sai errado (com uma frequência incômoda: gráfico ilegível, número trocado, esquema com o componente no lugar errado). O que muda é o tempo gasto na parte mecânica. Sobra mais tempo pra decidir o que vale a pena fazer.

Resultado: uma pasta de calculadoras, quatro jogos, um gerador de escala para galvanômetro e uma tabela de conserto mais completa. Sem esse apoio, o mês teria fechado com um post de conserto e nada mais.

Mais um jogo pra treinar leitura de resistor SMD

A calculadora de resistor SMD existe desde a leva de calculadoras porque o código EIA-96 é chato de decorar: os dois dígitos não são o valor, são a posição numa tabela de 96 entradas, mais uma letra de multiplicador. Só que calculadora você usa com a tabela do lado, não força memorização nenhuma. Esse jogo é o contrário: mostra o resistor SMD com o código impresso e cobra o valor antes do tempo acabar.

São 5 resistores e 3 vidas por partida, três níveis: Fácil é o código de 3 dígitos (o clássico "472" = 47 e dois zeros), Normal mistura 3 e 4 dígitos, e Difícil é o EIA-96 de verdade. Diferente dos outros três jogos da série, aqui não tem tolerância pra informar: o código impresso não carrega essa informação, só o valor.

É o quarto jogo da família, depois do Adivinhe o Resistor, do Capacitor e do Indutor, os três de código de cores. Guarda quais códigos mais te enganam e cobra mais deles depois, roda offline depois que a página abre, e também está em inglês e espanhol.

Se depois de algumas partidas você ainda tropeçar no EIA-96, a calculadora continua ali do lado, sem julgamento.

testcard-rs - um gerador de padrão de teste de vídeo pra bancada

Toda vez que uma TV chega na bancada com suspeita de defeito de imagem (convergência torta, cor errada, geometria) o jeito mais rápido de confirmar era caçar um padrão de teste no YouTube ou gravar um numa pendrive, torcendo pra TV ler o arquivo. Resolvi isso com o testcard-rs: um programa nativo, mesmo binário pra Windows e Linux, que joga o padrão fullscreen numa tela (a TV, ligada por HDMI) enquanto o painel de controle fica na outra.

Tem barras de cor (SMPTE e EBU 75%), grade de convergência com círculo, escala de cinza em degraus e em gradiente, multiburst pra checar nitidez, área segura de overscan, o cartão europeu inspirado no PM5544 e até o Indian Head clássico da RCA, de domínio público. Também toca tom de teste (100 Hz, 440 Hz, 1 kHz, 10 kHz) pela saída de áudio, útil pra checar o canal de som junto.

O projeto completo, com os binários prontos e o código-fonte, está no repositório testcard-rs no GitHub.

A carta de ajuste da TV aberta sumiu faz tempo. Pelo menos na minha bancada ela voltou.

Duzentas e setenta e nove desmontagens, numa tabela só

O primeiro post com esse rótulo é de 2008: um carregador de bateria Ecomania vendido como "microprocessado" que, aberto, só tinha um LM393 comparando tensão pra decidir quando cortar a carga. Nenhum microcontrolador. Desde então entraram 281 desmontagens no blog, de TV a instrumento de bancada, e a lista ficou grande o bastante pra virar tabela.

A tabela em O que tem dentro junta as 279 que sobraram depois de tirar tour de laboratório, review sem abrir o aparelho e manutenção só mecânica (trocar o mandril de uma furadeira não conta). Ano, marca, tipo, o CI que faz o trabalho pesado, os CIs coadjuvantes e o achado em uma frase, com o modelo linkando pro post original. Busca por texto, filtro por categoria (TV e vídeo, games, áudio, instrumentos de bancada e mais oito) e ordena por mais recente, marca ou tipo.

Juntar tudo numa tabela só deixa claro que a eletrônica de consumo repete muito mais peça do que parece de fora. O ICL7106, o conversor A/D clássico de mostrador de 3,5 dígitos, aparece em cinco multímetros de bancada diferentes: um Icel, três Minipa e um testador de transistor da DUOYI. E o IP5306, o controlador de carga que todo power bank chinês usa, aparece em dois power banks (nada surpreendente) e também dentro do adaptador de baterias da Qianli Macaron, um soldador de ponto portátil, não um carregador de celular.

Marca falta em 75 das 279 linhas e modelo em 67, não por preguiça de anotar: bugiganga genérica sem etiqueta, achado em ferro-velho, foto sem legenda no post original. CI principal falta em 104, a maioria porque a placa realmente não tinha um CI que valesse a pena destacar. Fica em branco em vez de chutar.

Se você tá pra abrir um aparelho e quer adiantar o que vai encontrar, a tabela é o atalho. Se o seu não estiver lá, é porque ainda não caiu aqui pra eu desmontar.

Consertando um Power Bank Baseus que não ligava

Power bank Baseus aberto, com a placa, a bateria e a bobina de carregamento sem fio à vista

Um power bank Baseus de 20 W, com carga sem fio, chegou aqui sem acender nenhum LED. Na fonte de bancada a tensão de saída ficava oscilando, sinal de curto. Fiz um vídeo mostrando o diagnóstico completo e o conserto:

Um lado da placa: o indutor do boost, o conector USB-C, a chave liga/desliga e os MOSFETs de power path.

Placa do power bank mostrando o indutor do boost, o USB-C e os MOSFETs de power path

O outro lado da placa: o CI principal SW6201S, que faz carregador, boost e power path sozinho, o resistor shunt R005 (removido durante o diagnóstico pra isolar o curto) e, ao lado dele, o capacitor cerâmico trocado — solda visivelmente feita à mão, diferente do resto da placa.

Placa do power bank Baseus mostrando o CI SW6201S, o resistor R005 e o capacitor trocado ao lado dele

O curto ficou isolado num nó que só é alimentado quando algo está plugado, por isso a bateria continuava em 4,1 V o tempo todo. Removi o shunt R005 pra dividir o circuito em dois lados e comparar onde o curto sumia. Sobrou um capacitor cerâmico de 22 µF em curto. Troquei o capacitor e o power bank voltou a carregar normalmente. O SW6201S, os MOSFETs de power path e o CI do carregamento sem fio nunca precisaram ser trocados.

A placa tem dois termistores de controle de temperatura: um monitora a bateria e o outro, a bobina de carregamento por indução.

Noventa e cinco consertos, numa tabela só

Esse blog documenta conserto desde 2008, quando um carregador de pilha Ecomania só precisava do plugue recolocado. Dezoito anos depois eram 103 posts com o rótulo Consertos, espalhados pelo arquivo mensal que ninguém navega inteiro. Quando alguém perguntava nos comentários se eu já tinha mexido num modelo parecido, a resposta dependia da minha memória, não de busca nenhuma.

A tabela em Consertos documentados junta os 95 que sobraram depois de tirar teardown sem reparo, coletânea de dica e conserto que não deu certo. Ano, marca, tipo do aparelho, defeito, causa e o que foi feito, com o modelo linkando pro post original. Busca por texto, filtro por categoria (TV e vídeo, games, áudio, eletrodomésticos e mais quatro) e ordena por mais recente ou por aparelho.

Filtrando por PlayStation, por exemplo, aparecem dois: o PS3 que perde a data e a hora porque a pilha CR2032 acabou, e o PS5 que não ligava e só dava um beep, capacitor de 22 µF em curto na linha de 5 V do SSD e fusível F7502 aberto. A fonte chaveada que perde o CI regulador é a queixa mais repetida da tabela toda (STRW6053N, MP3378E, TOP243, DK125), de TV a umidificador de ar. E tem os casos fora da curva, tipo o Super Nintendo que parou de dar vídeo porque o cristal de 21,477 MHz simplesmente parou de oscilar, ou o relógio de parede que virou um Raspberry Pi Pico W depois que o controlador original queimou.

Nem todo caso terminou redondo: 9 dos 95 ficaram como parcial, componente trocado mas o aparelho não voltou 100 %. Fica registrado do mesmo jeito, junto com os que deram certo.

Se o seu aparelho quebrado é parecido com algum da lista, o link do post original tá ali do lado. Se não achar, é porque ainda não caiu aqui pra eu desmontar.