Multímetro Amarelinho de R$ 5,00: por dentro (e onde ele é perigoso)

Multímetro Luatek LWJ-303A de R$ 5,00 ainda na embalagem, com as pontas de prova

O multímetro acima é um Luatek LWJ-303A, o famoso "amarelinho" (o meu veio laranja). Custou R$ 5,00 e é o mais barato que já comprei. Medi contra as minhas referências, abri e fui procurar o fusível do jack de 10A. Fiz um vídeo mostrando os testes e a desmontagem:

Agora mais fotos e informações. A caixa abre com só dois parafusos. Dentro, a placa principal e a bateria de 9V, que já veio com ele:

Interior do multímetro com a placa montada e a bateria de 9V Peak Power

A placa sai inteira, ligada à plaquinha dos jacks de entrada:

Caixa laranja do multímetro aberta, com a chave rotativa e a placa verde fora da carcaça

O CI é uma gota de epóxi preto montada direto na placa (chip-on-board), o que sai mais barato que um CI normal. Não dá para saber qual é. Fora ele, não tem nenhum transistor, só um diodo, o buzzer redondo à direita e o soquete de hFE:

Detalhe da placa do multímetro com a gota de epóxi preto do chip, o buzzer e a plaquinha dos jacks

Nos testes, o manual dá 1% de precisão básica em tensão contínua. Era um bom número há 34 anos, hoje se acha multímetro de 0,5% fácil. Medi minha referência de 5 V (0,1%) e ele marcou 5,01 V. O resistor de 1 kΩ de 0,1% também deu uma leitura dentro do esperado. Tem teste de continuidade com beep, que é útil.

O manual e a caixa falam em temperatura, mas não achei nada de temperatura no aparelho. Em compensação tem uma saída de onda quadrada, com o símbolo ao lado do hFE, que o manual nem cita. No osciloscópio deu uns 30 Hz e dá para testar um circuitinho de áudio com ela. Como o CI é a única coisa ativa na placa, o sinal deve sair dele. Por isso desconfio que não seja um ICL7106 de verdade, só um equivalente.

O problema é o fusível. O painel avisa "UNFUSED" ao lado do jack de 10A e marca "FUSED" na entrada de mA, mas na bancada não achei fusível em nenhuma das duas. Se passar corrente demais no 10A, quem abre é um resistor da placa.

Dá para usar em manutenção, se você prestar atenção no que está fazendo. Se queimar, já era. Paguei R$ 5,00 e o preço normal é uns R$ 20. Só a bateria já quase paga o multímetro.

Palavras cruzadas de eletrônica: 20 níveis pra treinar o vocabulário

Fiz um jogo de palavras cruzadas com o vocabulário da bancada. São 20 níveis e 108 palavras, de VOLT e OHM no primeiro nível até POTENCIOMETRO e TRANSFORMADOR no último, com 13 letras cada.

A primeira versão sorteava a grade na hora, direto no navegador. Não precisava disso. Montei as 20 grades uma vez, com um script, e deixei fixas. Cada nível é sempre o mesmo, então dá pra voltar nele e tentar fechar em menos tempo. Fechou a grade, o próximo nível abre, e quanto mais rápido, mais pontos.

O que mais deu trabalho foram as dicas. Revisando as 108, achei cinco ruins. A do RADIO dizia "recebe sinais de rádio", e a do CORRENTE entregava a palavra CONDUTOR, que estava na mesma grade. Troquei essas duas e mais três.

Duas regras: escreva sem acento e sem cedilha ("relé" vira RELE), e o botão Revelar mostra a grade resolvida mas não conta o nível como concluído. O progresso não fica salvo, então recarregar a página volta ao nível 1.

O jogo está na página Palavras cruzadas de eletrônica. Os outros jogos do blog, de código de cores e de código impresso, estão na página de jogos.

Se achar alguma dica errada, escreve nos comentários que eu troco.

Treze calculadoras novas: fontes, filtros e LED

Quarta leva de calculadoras do blog. As duas anteriores cobriram a conta de todo dia e a conta de quando a montagem já está na bancada. Esta sobe um degrau: fonte chaveada, filtro ativo, snubber, dissipador. É o tipo de conta que se faz com o datasheet aberto do lado. As treze têm o esquema do circuito na página e estão no índice de calculadoras.

Na ordem em que ficaram no índice:

  1. Ponte de Wheatstone: os quatro braços e a tensão de alimentação, sai a tensão de desequilíbrio. Com a ponte equilibrada, sai o resistor desconhecido. No meio da ponte vai um galvanômetro, e pra quem tem um sem escala o gerador de escala já está no site.
  2. Filtro LC: L, C e a carga, sai a frequência de corte, a impedância característica e o Q. Passa-baixa ou passa-alta.
  3. Polarização de transistor: o NPN em emissor comum com divisor de tensão na base, resolvido por Thévenin. Sai Ib, Ic, Ie e Vce, que é o que diz se o transistor vai trabalhar no meio da reta ou encostado na saturação antes de soldar qualquer coisa.
  4. Filtro ativo Sallen-Key: segunda ordem, passa-baixa. R1, R2, C1, C2 e o ganho do amp-op, sai a frequência de corte e o Q. Se o corte cair na faixa de áudio, dá pra conferir a curva montada com o gerador de sinais e o osciloscópio pela placa de som.
  5. LM317 como fonte de corrente: um resistor entre OUT e ADJ e o LM317 vira fonte de corrente constante, I = 1,25 V / R. O testador de LEDs que mostrei em 2019 não tem nada disso, só resistor de limitação e a corrente marcada no painel como referência. Com um LM317 a marcação seria de verdade.
  6. Conversor buck/boost: tensão de entrada, de saída, corrente e frequência de chaveamento. Sai a razão cíclica e a indutância mínima pra não cair em modo descontínuo.
  7. Snubber RC para relé e triac: o RC em paralelo com o contato ou com o triac, pra segurar o pico quando uma carga indutiva é desligada. Existe mais de um jeito de dimensionar snubber. Este usa balanço de energia e amortecimento crítico, e a página avisa isso.
  8. Multiplicador de tensão: dobrador, triplicador ou quantos estágios quiser, a diodo e capacitor. Sai a tensão de saída e uma estimativa do ripple, que vale pra carga leve.
  9. Resistor ou NTC contra inrush: fonte com capacitor grande na entrada puxa um pico enorme na hora de ligar. A calculadora dá a resistência mínima pra limitar esse pico e compara resistor fixo com NTC, que esquenta, cai de resistência e para de dissipar tanto depois que a fonte estabiliza.
  10. Fita de LED: fita de 12 V puxa bastante corrente, e a queda no cobre da própria fita deixa o fim mais fraco que o começo. A calculadora estima essa queda e o comprimento máximo antes de passar do limite. É a da imagem acima: duas fitas de 5 m (14,4 W/m) emendadas e ligadas por uma ponta só puxam 12 A e perdem 2,4 V até o fim, 20 % da tensão. Eu tenho uma fita de 5 metros comprada por engano e ainda bem que não comprei duas.
  11. Dissipador para LED de potência: é a mesma conta do vlog de dissipadores de 2014 (Tf = Ta + PD × Rθ), agora virada pra LED de 1 W, 3 W e 10 W. Sai a resistência térmica máxima do dissipador pra junção não passar do limite.
  12. Atenuador resistivo L, Pi e T: atenuação em dB e impedância do sistema, 50 Ω pra RF ou 75 Ω pra vídeo, sai o valor de cada resistor. Faz dupla com a calculadora de dBm da leva passada.
  13. Quadripolos: a mais teórica de todas, e nem estava na lista original. Converte entre parâmetros Z, Y, H, ABCD e S e cascateia duas redes. Só aceita número real, então serve pra rede resistiva e pra conferir exercício, não pra RF com parte imaginária.

Com essa leva o índice passa de cinquenta calculadoras. A próxima já tem lista: indutor de núcleo de ar, toroide, VSWR, transformador. Se você faz alguma conta sempre na mão, escreve aí embaixo que ela entra na fila.

Por que saíram tantos posts esse mês

Setembro teve post atrás de post aqui no blog: calculadora, jogo, medidor, tabela de conserto, mais do que o normal. A explicação é simples: comecei a usar IA para montar as ferramentas do blog, não só para escrever texto.

Uso o Claude Code, um assistente de programação que roda no terminal, assinando o plano Pro da Anthropic. Dou uma instrução (por exemplo "faz uma calculadora de divisor de tensão, com esquema do circuito e explicação") e ele escreve o HTML, o CSS e o JavaScript da página inteira. Eu testo, peço ajuste, ele ajusta. Às vezes refaço três ou quatro vezes até o resultado ficar do jeito que eu queria.

Foi assim que saíram as calculadoras. No mês, publiquei 39 páginas diferentes, divididas em três levas: 15 reescritas das que já existiam (só para ficarem mais rápidas e melhor indexadas), 12 novas e outras 12 numa terceira rodada. Cada uma tem esquema do circuito desenhado com uma biblioteca própria para isso (schemdraw), não mais os desenhos feitos à mão em SVG que eu usava antes.

Os jogos seguiram o mesmo caminho: "Adivinhe o Resistor", "Adivinhe o Capacitor", "Adivinhe o Indutor" e "Leia o Resistor SMD". Queria testar se dava pra fixar código de cores de um jeito mais direto que texto corrido, e virou umas horas de trabalho por jogo em vez de uma semana.

A parte que mais gostei foi organizar dado bruto. A tabela do "O que tem dentro" (peças e defeitos que já vi em conserto) cresceu bastante porque consegui pedir para o Claude vasculhar posts antigos, extrair aparelho, defeito e componente trocado, e montar a base sem eu digitar linha por linha. Depois eu confiro cada entrada contra o post original, porque IA erra, mas o trabalho de garimpar já vem pronto.

Não é mágica: ainda decido o que fazer, testo cada página no navegador antes de publicar, e corrijo o que sai errado (com uma frequência incômoda: gráfico ilegível, número trocado, esquema com o componente no lugar errado). O que muda é o tempo gasto na parte mecânica. Sobra mais tempo pra decidir o que vale a pena fazer.

Resultado: uma pasta de calculadoras, quatro jogos, um gerador de escala para galvanômetro e uma tabela de conserto mais completa. Sem esse apoio, o mês teria fechado com um post de conserto e nada mais.